“
O barzinho estava vazio, levemente iluminado e com alguns poucos casais espalhados pelo ambiente. O menos romântico deles, sentado exatamente na mesa central do estabelecimento parecia estar escolhendo o que iriam beber.
- Vinho ou cerveja? - perguntou o jovem rapaz, que não aparentava ter mais do que 25 anos.
A moça de cabelos ruivos tirou o menu da frente do rosto e foi direta:
- Vinho, é óbvio. Com esse frio…
A contradição foi imediata.
- Já bebemos vinho na semana passada, meu amor.
- E daí? - indagou a garota, franzindo a testa.
O rapaz deu um suspiro de impaciência e depositou o cardápio sobre a mesa.
- Só não gosto de repetir sempre as mesmas coisas.
- Que belo raciocínio! - ironizou a ruiva. - Bom, já que me depilei no mês passado, estou pensando em virar uma macaca nos próximos meses. Não é bom repetir as coisas.
- Sabe algo que deveria parar de se repetir? Essa sua TPM permanente.
Ela colocou os braços sobre a mesa e aproximou o rosto do de seu namorado.
- O problema é a minha TPM ou o seu vício irritante por cerveja?
Ele repousou os ombros sobre o encosto da cadeira, aparentemente desleixado para a situação.
- E qual é o problema com a minha cerveja?
- Seu fígado, seu bolso e sua barriga.
Agora foi a vez dele de aproximar o rosto para mostrar imponência.
- Barriga? Acho que não sou eu que estou tomando remédios para emagrecer.
- O metabolismo feminino é diferente, meu amor. Perdemos peso com mais dificuldade.
- Com todas aquelas caixas de bombom no armário da cozinha fica realmente difícil perder peso.
O nível da conversa estava caindo e os dois já começavam a chamar a atenção das pessoas ao redor, que olhavam discretamente.
- Olha aqui, - disse a moça, apontando o dedo para o nariz do seu talvez futuro ex-namorado. - ao menos eu tenho disposição suficiente para queimar todas, eu disse TODAS as minhas calorias em excesso na academia. Ao contrário de algumas pessoas que caminham na esteira a quatro por hora.
- A quatro por hora? - a calúnia foi demais pra ele, mas ela só estava começando.
- Claro! Se andasse mais rápido, teria dificuldade pra olhar a bunda das meninas…
Se existisse uma escala para medir a altura da voz, o tom de voz do rapaz teria passado de ‘normal’ para ‘levemente elevado’.
- Falou a mulher que nunca olha pra ninguém!
- Quer saber? Eu olho mesmo! Mas pelo menos eu disfarço. Nada de virar o rosto, nada de parar na rua. Aprende com quem entende, meu amor.
O rapaz empurrou o corpo contra o encosto da cadeira e ficou ali, desleixado. Um garçom hispânico surgiu de repente com um bloquinho e uma caneta nas mãos.
- Vão beber o que? - perguntou, como de prache.
O casal se entreolhou. Ela se adiantou.
- Vamos beber vinho! Uma torre de vinho!
O rapaz colocou as mãos nos cabelos e os puxou pra trás, entregando o fato de seu saldo de paciência estar negativo. Olhou para o crachá do garçom preso à sua camisa e viu o nome: Rodolfo.
- Rodolfo, traz um balde de pipocas.
Tanto o garçom quanto a garota se espantaram. Ela logo questionou:
- Pipocas?
- Já vi que o seu showzinho vai ir longe. Já que vou ficar aqui assistindo, nada como uma pipoquinha pra acompanhar. - e virou para o garçom. - Com bastante manteiga, tá?
O homem anotou em seu bloquinho e virou-se para a mulher dos cabelos ruivos.
- E a senhora?
O silêncio por parte dela foi total. Ele logo entendeu o recado, girou nos calcanhares e voltou para a cozinha.
- Pode começar, - pediu o namorado. - daqui a pouco a pipoca chega.
- O que você quer, afinal? - indagou, elegantemente histérica.
- A minha cerveja.
- Pois, não.
Ela se levantou da cadeira, caminhou até uma mesa no canto do barzinho onde alguns rapazes riam descontroladamente - aparentemente alcoolizados e pegou um dos copos de cerveja que estavam por ali sem sequer ser notada. Voltou para a sua mesa e sentou-se novamente.
- O que você está fazendo? - questionou o rapaz, receoso com o fato de darem falta do copo.
- Eu apenas fui buscar a sua cerveja, toma! - e jogou o conteúdo do copo contra o rosto do próprio namorado.
Ele ficou imóvel, sem reação alguma enquanto a espuma escorria por seu rosto e lhe molhava o corpo todo. Depois de alguns vários segundos, ele passou a mão pelo rosto para limpá-lo e bufou.
- Pra mim chega! - e levantou-se da cadeira.
Quando se preparava para ir embora, o garçom chegou com o balde de pipocas.
- Com licença… - e arrancou o balde das mãos do homem. Sem pestanejar, puxou a gola da blusa da namorada e despejou todo o conteúdo do balde dentro de sua roupa. - milho combina contigo.
E foi embora.
Sim, embora. Ela se desesperou, mas não aparentou. Manter a classe é indispensável. Mas ele voltou na noite seguinte e, por incrível que pareça, bebeu vinho. Aliás, bebeu até demais.
Bebeu tanto, que em certo momento chegou a dizer uma verdade inédita durante todo aquele tempo de namoro.
- Eu te amo, minha linda. Eu te amo… mesmo você sendo assim, toda insuportável.
Nenhum comentário:
Postar um comentário