
Você me assombra, como sempre. De passos leves, de sorriso triste. Sim, é possível sorrir com uma tristeza de quem já se fodeu na vida. Mergulho. Entro num abismo profundo. Estou sonhando. Devo estar.
Era você lá. Sem voz. Sem luz. Era você, e vultos em todo o canto. Eram pessoas. Estávamos no meio de uma multidão que não produzia som, que não produzia ruído sequer. Éramos dois.
Flutuamos. Vamos além daquele mundo. Saímos dali. E novamente, dois.
Você. Eu.
Flutuamos pelo o espaço. Já imaginou, como seria incrível? Feito Wall-E, mas melhor. Bem melhor. Entre poeira de estrelas, entre asteróides e mundos. Velocidade da luz.
Engraçado ter você ali, na minha frente. Mas sempre sem palavras. Sempre com no máximo um sorriso qualquer. Se pudesse, e posso, te digo que teu sorriso é lindo. Te digo que teus olhos tristes são como o frio desse lugar que você mora. Mas não como o frio do lugar onde você dorme. Como se pudesse tocar em seu corpo e ter você em meu abraço mais uma vez. Como se pudesse ficar em cima de você e te proteger do fim do mundo. Quem me dera. Quem me dera mais uma vez poder sequer sentir uma lágrima tua no meu ombro ou tua respiração perto da minha. Maldito que eu me tornei. Maldito erro. Maldita droga de dor que… está em todo canto em mim, A..
Você acha que um dia poderíamos dar certo? Eu não sei você, mas… mesmo ali, naquele sonho, eu me perguntava o tempo todo isso. E você como sempre, apenas sorria um sorriso de quem sabe que o pior está por vir. E fugia. Desaparecia. Eu caía.
Mas ainda assim. Ainda assim eu penso.
Talvez seja a jornada. Talvez seja a distância. Eu estou tentando me enganar. Estou tentando me danar um pouco, me meter em bebidas, em casos quaisquer e todo o resto. Você me quebrou. Você sabe disso. Já me disseram que eu estou estragado, que eu estou muito sexy e que talvez eu devesse seguir assim do mesmo jeito.
Esse é o preço talvez.
“Você tem potencial”, “você está indo rápido, cara!”, “É bom ter alguém assim por perto”. Escuto isso o tempo todo. Nada parece importar. E na verdade, irrita. Irrita saber que… era de você que eu precisava. Mas tens teu tempo, garota. Você não é guerreira, não é menininha, nem eu sou lobo, nem Souza. Só o Vinícius. E você… bom, você é o primeiro nome. Você é a tentativa de ser tudo, e esconder bem aquilo que é. Pois é o único jeito que você sabe para lidar com isso, mas droga… te ensinaram errado. Como quem se mete em zilhões de livros e vê milhares de personagem superando seus próprios medos mas não se esforça para lidar com coisas simples. E não é maturidade, nem decisões adultas. É sobre fazer aquilo que o coração manda. Aquilo que te faz bem de verdade.
Consegui erguer novamente. Salvei meus pais, paguei as contas e agora as coisas vão melhorar. Mas eu? Eu estou acabado. Cansado. Sem rumo. Mas a imagem está ali. Eu estou forte, exceto quando desabo. Mas calculo muito bem onde e quando, não posso acabar com os receios. Não… não eu que sempre fui bem com eles. Ou me tornei? Eu nunca sei.
Mas sou verdadeiro, doce garota. Ou talvez amarga, dependendo do seu estado de espírito atual. Feito olhar frio como naquela vez em que eu tive que partir. Sou verdadeiro quando sinto de verdade. No mais, sou apenas a sombra de um piloto-automático.
Eu não possuo amarras mais. Não tem nada que me prende. Para ser sincero, eu estou sem sentido algum. Me tornei forte. Mas não sei para o quê. Eu tenho raiva, mas… talvez seja isso. Talvez você tenha que seguir assim e entender que nem sempre vai ter razão em tudo. Que somos passíveis de erro, de dor e que fazemos merda. Espero ter sido um bom exemplo. Minha raiva, é por… por estar tão longe. Você tem a chave disso tudo, sempre teve. Mas talvez nunca faça nada com ela. Talvez espere que o tempo me apague do tempo, e um dia saiba que eu fui. Ou que irei. Ou que talvez… já faça muito tempo. Talvez, de tanto tempo, você esteja com outro. Alguém que te garanta a vida, que não pise em cima dos cacos, e que você possua o controle sobre. Talvez você ame, talvez você tenha uma filha. Talvez tenha uma casa com livros, e ele te acorde de manhã com beijos. Talvez eu seja só um conto que jamais teve fim, por quê nunca foi digno de ser nada. Só o preenchimento de um vazio que outra pessoa tinha te causado. É. Talvez.
Me afundo. Em sonhos distorcidos em que flutuamos no espaço, ou em que acordo no teu colo. Teu olhar. Ele me persegue. Me persegue em meio aos rostos desconhecidos no metrô de São Paulo, entre a chuva que cai por entre os prédios. Teu olhar e teu sorriso feito aquela sensação engraçada da neblina da sua cidade, me desmonta em cada segundo.
Vai. Viva a sua vida. Me deixa aqui de uma vez, e dá um jeito de sair da minha cabeça. Leva tudo que precisar. Pedaço de bolo, alfajor, torta… e não esquece da minha caneca do Ramones. Vai. Leva esse coração vazio meu e joga ele em algum canto. Eu estou cansado demais, bailarina. Eu quero virar um buraco negro e implodir já que não tem muita coisa que importa mais. Quem saiba eu não consiga explodir na próxima vez que eu sonhar?
Talvez eu esteja ficando louco. Talvez eu esteja me acabando.
Mas de uma coisa eu tenho certeza.
Eu estava sonhando com você.
E tudo que restou de hoje, foram as palavras. E um suspiro em meio a um gole de vodka. Boa noite.
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